Façam a leitura e percebam que o encontro de Jeziel (Estevão) com Efraim, nos dizeres de Irineu que ele era "um dos Bons Homens do "Caminho".
Guardadas as devidas proporções não difere da nossa chegada a Casa Espírita. Na provável atenção que recebemos daqueles que nos receberam na instituição. Por isso o Espiritismo revive o Cristianismo das primeiras horas.
Falaremos mais deste episódio nas próximas aulas.

[...]
— Irineu de Crotona, para vos servir — respondeu o interpelado, visivelmente satisfeito com o dinheiro que lhe refertava o bolso.
— Meu amigo — exclamou o rapaz extremamente enfraquecido —, estou enfermo e não conheço esta cidade, de modo a tomar qualquer resolução.
Podeis indicar-me algum albergue ou alguém que me possa prestar a caridade de um asilo?
Irineu esboçou uma fácies de fingida piedade e respondeu: — Pesa-me nada ter para colocar à disposição de vossas necessidades; e
também não sei onde possa existir um abrigo adequado para receber-vos, como se faz preciso. A verdade é que, para a prática do mal, todos estão prontos, mas para fazer o bem...
Depois, concentrando-se por momentos, acrescentou:
— Ah! agora me lembro!... Conheço umas pessoas que vos podem auxiliar. São os homens do “Caminho”. (1)
Mais algumas palavras e Irineu prontificou-se a conduzi-lo ao conhecido mais próximo, amparando-lhe o corpo enfermo e vacilante.
O sol caricioso da manhã começava a despertar a Natureza com os seus raios quentes e confortadores. Feita a reduzida caminhada por um atalho agreste, sustido pelo meliante arvorado em benfeitor, Jeziel parava à porta de uma casa de aparência humilde. Irineu entrou e de lá regressou com um homem idoso, de semblante agradável, que estendeu a mão, cordialmente, ao moço hebreu, dizendo:
— De onde vens, irmão?
O rapaz admirou-se de tanta afabilidade e delicadeza, num homem a quem via pela primeira vez. Por que lhe dava o título familiar, reservado ao círculo mais íntimo dos que nasciam sob o mesmo teto?
— Por que me chamais irmão, se não me conheceis? — interrogou comovido.
Mas o interpelado, renovando o sorriso generoso, acrescentava:
— Somos todos uma grande família em Cristo Jesus.
Jeziel não compreendeu. Quem seria aquele Jesus? Um novo deus para os que desconheciam a lei? Reconhecendo que a enfermidade não lhe dava ensanchas a cogitações religiosas ou filosóficas, respondeu simplesmente: Deus vos recompense pela generosidade da acolhida. Venho de Cefalônia, tendo adoecido gravemente em viagem, e assim e que, neste estado, recorro à vossa caridade.
(1) Primitiva designação do Cristianismo. (Nota de Emmanuel.)
— Efraim — disse Irineu dirigindo-se ao dono da casa —, nosso amigo tem febre e o seu estado geral requer cuidados. Você, que é um dos bons homens do “Caminho”, há de acolhê-lo com o coração dedicado aos que sofrem.
Efraim aproximou-se mais do jovem enfermo e observou:
— Não é o primeiro doente de Cefalônia que o Cristo envia à minha porta. Ainda anteontem, outro aqui surgiu com o corpo crivado de feridas de mau caráter. Aliás, conhecendo a gravidade do caso, pretendo logo à tarde levá-lo para Jerusalém.
— Mas, é necessário ir tão longe? — perguntou Irineu com certo espanto.
— Somente lá, temos maior número de cooperadores — esclareceu com humildade.
Ouvindo o que diziam e considerando a necessidade de ausentar-se do porto em obediência às recomendações do patrício que se lhe mostrara tão amigo, restituindo-o à liberdade, Jeziel dirigiu-se a Efraim num apelo humilde e triste:
— Por quem sois! levai-me para Jerusalém convosco, por piedade!...
O irterpelado, evidenciando natural bondade, anuiu sem maior estranheza:
— Irás comigo.
Abandonado por Irineu aos cuidados de Efraim, o doente recebeu carinhos de um verdadeiro amigo. Não fosse a febre e teria travado com o irmão um conhecimento mais íntimo, procurando conhecer minuciosamente os nobres princípios que o levaram a estender-lhe a mão protetora. Contudo, mal conseguiu manter-se de pensamento vigilante sobre si mesmo, a fim de elucidar as suas interrogações carinhosas, medicando-se convenientemente. Ao crepúsculo, aproveitando a frescura da noite, uma carroça, cuidadosamente velada por um toldo de pano barato, saía de Jope com destino a Jerusalém.
Caminhando cuidadoso para não esfalfar a pobre alimária, Efraím transportava os dois enfermos à cidade próxima, buscando os recursos
indispensáveis. Descansando aqui e ali, somente na manhã seguinte o veículo parou à porta de um casarão de grandes proporções, aliás paupérrimo em sua feição exterior. Um rapaz de semblante alegre veio atender ao recém-vindo, que o interpelou com intimidade:
- Urias, poderás dizer-me se Simão Pedro está?
- Está, Sim.
- Poderás chamá-lo em meu nome?
- Vou já.
Acompanhado de Tiago, irmão de Levi, Simão apareceu e recebeu o visitante com efusivas demonstrações de carinho. Efraim esclareceu o motivo da sua presença. Dois desamparados do mundo requeriam auxílio urgente.
- Mas é quase impossível - atalhou Tiago. - Estamos com quarenta e nove doentes acamados.
Pedro esboçou um sorriso generoso e obtemperou:
- Ora, Tiago, se estivéssemos pescando, seria justo nos eximíssemos desse ou daquele dever que exorbitasse a esfera das obrigações inadiáveis de cada dia, junto da família, cuja organização vem de Deus; mas agora o Mestre nos legou o trabalho de assistência a todos os seus filhos, no sofrimento. Presentemente, nosso tempo se destina a isso; vejamos, pois, o que é possível fazer.
E o bondoso Apóstolo adiantou-se para acolher os dois infelizes. Desde que viera do Tiberíades para Jerusalém, Simão transformara-se em célula central de grande movimento humanitarista. Os filósofos do mundo sempre pontificaram de cátedras confortáveis, mas nunca desceram ao plano da ação pessoal, ao lado dos mais infortunados da sorte. Jesus renovara, com exemplos divinos, todo o sistema de pregação da virtude.
Chamando a si os aflitos e os enfermos, inaugurara no mundo a fórmula da verdadeira benemerência social.
As primeiras organizações de assistência ergueram-se com o esforço dos apóstolos, ao influxo amoroso das lições do Mestre.
Era por esse motivo que a residência de Pedro, doação de vários amigos do "Caminho", regurgitava de enfermos e desvalidos sem esperança. Eram velhos a exibirem úlceras asquerosas, procedentes de Cesaréia; loucos que chegavam das regiões mais longínquas, conduzidos por parentes ansiosos de alívio; crianças paralíticas, da Iduméia, nos braços maternais, todos atraídos pela fama do profeta nazareno, que ressuscitava os próprios mortos e sabia restituir tranqüilidade aos corações mais infortunados do mundo.
Natural era que nem todos se curassem, o que obrigava o velho pescador a agasalhar consigo todos os necessitados, com carinho de um pai. Recolhendo-se ali, com a família, era auxiliado particularmente por Tiago, filho de Alfeu, e por João; mas, em breve, Filipe e suas filhas instalavam-se igualmente em Jerusalém, cooperando no grande esforço fraternal.
Tamanho o movimento de necessitados de toda sorte, que há muito Simão não mais podia entregar-se a outro mister, no concernente à pregação da Boa Nova do Reino. A dilatação desses misteres vinculara o antigo discípulo aos maiores núcleos do judaísmo dominante. Obrigado a valer-se do socorro dos elementos mais notáveis da cidade, Pedro sentia-se cada vez mais escravo dos seus amigos benfeitores e dos seus pobres beneficiados, acorridos de toda parte, em grau de recurso supremo ao seu espírito de discípulo abnegado e
sincero. Atendendo às solicitações confiantes de Efraim, providenciou para que ambos os enfermos fossem instalados na sua casa pobre.
Jeziel ocupou leito asseado e singelo, em estado de completa inconsciência, no delírio da febre que o prostrava. Suas palavras desconexas, entretanto, revelavam tão exato conhecimento dos textos sagrados, que Pedro e João se interessaram de modo especial por aquele jovem de faces macilentas e tristes. Mormente Simão, passava longas horas entretido em ouvi-lo, anotando-lhe os conceitos profundos, embora filhos da exaltação febril.
Decorridas duas semanas exaustivas, Jeziel melhorou, rearmonizando as próprias faculdades para melhor analisar e sentir a nova situação. Afeiçoara-se a Pedro, como um filho afetuoso ao legitimo pai. Notando-lhe o carinho, de leito em leito, de necessitado a necessitado, o moço hebreu experimentava deliciosa e íntima surpresa, O ex-pescador de Cafarnaum, relativamente moço ainda, era o exemplo vivo da renúncia fraterna. Tão logo convalescente, Jeziel foi transferido a ambiente mais calmo, à sombra amena de vetustas tamareiras que circundavam a velha casa.
Entre ambos estabelecera-se, desde os primeiros dias, a corrente magnética das grandes atrações afetivas.
Nessa manhã, as observações amáveis sucediam-se e, não obstante a justa curiosidade que lhe pairava nalma, a respeito do interessante hóspede, Simão ainda não tinha logrado o ensejo de um intercâmbio de idéias, mais íntimo, de maneira a sondar-lhe os pensamentos, inteirando-se dos seus sentimentos e da sua origem. Ao sopro generoso da aragem matinal, sob as árvores frondosas, o Apóstolo criou ânimo e, a certa altura, depois de distrair o convalescente com alguns ditos afetuosos, buscou penetrar-lhe o mistério, cuidadosamente:
— Amigo — disse com jovial sorriso —, agora que Deus te restituiu a saúde preciosa, regozijo-me por havermos recebido tua visita em nossa casa. Nosso júbilo é sincero, pois que, nos mínimos detalhes da tua permanência entre nós, revelaste a condição espiritual de filho legítimo dos lares organizados com Deus, pelo conhecimento que tens dos textos sagrados. E tanto me impressionei com as tuas referências a Isaías, quando deliravas com febre alta, que desejaria saber de que tribo descendes. Jeziel compreendeu que aquele amigo sincero, antes irmão carinhoso nas horas mais críticas da enfermidade, desejava conhecê-lo melhor, identificá-lo íntima e profundamente, com delicada argúcia psicológica. Achou justo e considerou que não devia desprezar o amparo de um coração verdadeiramente
fraterno, para o acendramento das próprias energias espirituais.
— Meu pai era filho dos arredores de Sebaste e descendia da tribo de Issacar — esclareceu atencioso.
— E era tão altamente dedicado ao estudo de Isaías?
— Estudava sinceramente todo o Testamento, sem preferências, talvez, de ordem particular. A mim, porém, Isaías sempre me impressionou profundamente pela beleza das promessas divinas de que foi portador, anunciando-nos o Messias, sobre cuja vinda tenho meditado desde a infância.
Simão Pedro esboçou um sorriso de viva satisfação e disse:
— Mas, não sabes que o Messias já veio?
Jeziel teve um brusco sobressalto na cadeira improvisada.
— Que dizeis? — inquiriu ansioso.
— Nunca ouviste falar em Jesus de Nazaré?
Embora recordasse vagamente as palavras ouvidas de Efraim, declarou:
— Nunca!
— Pois o profeta nazareno já nos trouxe a mensagem de Deus para todos os séculos.
E Simão Pedro, olhos acesos na chama luminosa dos que se sentem felizes ao recordar um tempo venturoso, falou-lhe da exemplificação do Senhor, traçando uma perfeita biografia verbal do Mestre sublime. Em traços de forte colorido, lembrou os dias em que o hospedava no seu tugúrio à margem do Genesaré, as excursões pelas aldeias vizinhas, as viagens de barca, de Cafarnaum aos sítios marginais do lago. Era de se lhe ver a emoção intraduzível da voz, a alegria interior com que rememorava os feitos
e prédicas junto ao lago marulhoso, acariciado pelo vento, a poesia e a
suavidade dos crepúsculos vespertinoS. A imaginação viva do Apóstolo sabia
tecer comentários judiciosos e brilhantes ao evocar um leproso curado, um
cego que recuperara a vista, uma criancinha doente e prestes restabelecida.
Jeziel bebia-lhe as palavras, inteiramente empolgado, como se houvesse
encontrado um mundo novo. A mensagem da Boa Nova penetrava-lhe o
espírito desencantado, como um bálsamo suave.
Quando Simão parecia prestes a terminar a narrativa, não pôde conter-se
e perguntou:
— E o Messias? Onde está o Messias?
— Há mais de um ano — exclamou o Apóstolo apagando a vivacidade com a lembrança triste — foi crucificado aqui mesmo em Jerusalém, entre os ladrões. ...[...]




